A nossa Comunidade é formada por cristãos: homens e mulheres, adultos e jovens, de todas as condições sociais que desejam seguir Jesus Cristo mais de perto e trabalhar com Ele na construção do Reino, e reconheceram na CVX a sua particular vocação na Igreja (PG4)
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05 maio 2016
08 abril 2016
Covilhã, 5 de março de 2016
Rezar com Santo Inácio
A 5 de março decorreu na paróquia de
S. Pedro, Covilhã, o encontro de oração “Rezar com Santo Inácio”, sob a
orientação do Pe. Rafael Morão e do noviço Vasco.
Este encontro foi essencialmente repartido
por três momentos. No primeiro momento, após a apresentação dos presentes, foi
levantada a questão: o que é para ti a oração? Esta foi o ponto de partida para
uma reflexão sobre o sentido e a necessidade da oração.
Num segundo momento, o Pe. Rafael
Morão fez uma síntese do percurso autobiográfico de Santo Inácio de Loyola, sobre
quem foi este homem e o caminho que o levou a querer viver na Companhia de Jesus?
Por último fomos convidados a
refletir sobre o sentido de “Oração e Vida”, oração como forma de exercício
espiritual diário: como devo levar a minha vida para a oração e de que forma a
oração me leva e encontrar Deus na minha vida?
Este encontro foi ainda pontuado por
momentos de pausa para reflexão e oração individual e partilhada.
O que é para ti orar? Quando
confrontada com esta questão e com alguns possíveis sentidos para a palavra
orar, houve um que mais me tocou: “A oração é um tratar de amizade…”, de Santa
Teresa de Jesus. Pensei no ato de cuidar, como uma amizade ou um amor que precisa
de ser cuidado, que necessita ser alimentado para que viva… Sim, orar é cuidar!
No entanto, no decurso desta reflexão partilhada, como que se foi clarificando
o sentido do verbo Orar. Orar é maior que cuidar e alimentar, porque orar é colocar-me
na presença de Deus, sem limitação temporal. Orar nunca é passado, nem
presente, nem futuro, porque este Deus paciente acolhe-me e espera por mim, até
que eu vá ao seu encontro. Deus é Aquele que espera, mesmo quando me ausento
sem deixar mensagem, sem avisar das minhas ausências. Apenas espera, mesmo
quando as minhas rotinas ou as minhas insensíveis e impreteríveis desculpas me
levam a não “poder” encontrar-me com Ele…
Agradeço ao Senhor ter-me
possibilitado participar neste “Rezar com Santo Inácio”. São precisos estes
momentos para nos “abanar por dentro”, para que possamos (re)tomar consciência
da grandeza deste Amor misericordioso e infinito de Deus.
Da avaliação final, penso que todos
saímos deste encontro mais fortalecidos e determinados a ir mais vezes ao
encontro deste Deus que espera. Mais conscientes de que o alimentar desta
relação depende da nossa vontade de nos colocarmos na sua presença da forma
mais íntima possível, através da Oração.
Um muito Obrigada ao Pe. Rafael Morão
e ao Vasco, por tão bem nos terem acolhido, organizado e orientado este
dia.
Por último, gostaria de assinalar que este
dia (feliz e indeliberadamente), coincidiu com a jornada de oração e penitência
“24 horas para o Senhor”, proposta do Papa Francisco, marcada com momentos de
oração e celebrações penitenciais repetidas em todo o mundo.
By Ana Quelhas
19 fevereiro 2016
17 fevereiro 2016
13 fevereiro 2016
"Preciso de amigos, antes de mais, para conhecer-me a mim mesmo."
Amizade
“[…] Jesus
ensina-me e ilumina-me às vezes por si mesmo na profundidade da minha mente e,
normalmente, através dos livros que leio e das pessoas que consulto. Deus atua
através dos homens e assim acontece quando se trata da amizade e do amor, que é
o que mais interessa na vida. Deus ama através dos homens. Jesus, o meu melhor
amigo, faz-me sentir e viver o seu amor através dos homens e mulheres que pôs à
minha volta, na minha família, na minha vida, no grupo religioso onde decorre o
meu trabalho, a minha oração e a minha esperança ao longo de toda a minha vida.
Jesus é o meu melhor amigo, e necessito de outros amigos ao meu lado que me
façam sentir, expressar e viver com eles essa amizade suprema, que dá sentido a
todas as outras.
Preciso de amigos,
antes de mais, para conhecer-me a mim mesmo. O conhecimento próprio é o ponto
de partida e a condição essencial de toda a procura espiritual, humana ou
divina, e é um paradoxo ineludível que o conhecimento próprio não se pode
adquiri a sós. Necessito de um espelho para ver o meu rosto. Necessito de um
amigo para ver a minha alma; necessito da sua presença, da sua paciência, da
sua intuição, das suas reações, do seu amor, para que reflitam os rasgos da
minha alma, me iluminem a mim e ao meu próprio modo de ser, me revelem a mim,
perante mim. O melhor do meu ser manifesta-se na amizade; a minha alegria, o
meu humor, a minha ternura, a minha astúcia, o meu interesse pelos outros e a
coragem para ser eu mesmo, tudo isso floresce de maneira espontânea e
irreprimível quando me encontro na presença de um amigo que amo. Ele faz brotar
as minhas melhores qualidades e dá-me o reflexo delas nesse quadro elogioso da
minha melhor essência, revelado no seu amor por mim, na sua alegria em ver-me,
na sua aceitação total de tudo o que sou tal como sou, do que às vezes me diz
diretamente, de como me vê e como interpreta o que digo e o que faço. Um amigo
fiel ao nosso lado, é a melhor ajuda para se conhecer a si mesmo sem véus que
nos encubram e sem medo. […]”
In Carlos G. Vallés
s.j. [1986]. Vivendo juntos. Braga: Livraria A.I.: 37-38.
16 outubro 2015
O Cuidado da Casa Comum, Carta Encíclica 'LAUDATO SI’ do Santo Padre Francisco
«LAUDATO SI’, mi’ Signore – Louvado sejas, meu Senhor», cantava São Francisco de Assis.
Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços:
«Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras».
Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços:
«Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras».
Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263.
Partilhamos o link da newsletter da FEC sobre a conferência 'Cuidar da Casa Comum'.
Uma iniciativa realizada em setembro com o apoio da Associação Casa Velha - Ecologia e Espiritualidade, em parceria com a Fundação Fé e Cooperação (FEC), a Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), a Agência Ecclesia, a Rede Inaciana de Ecologia e a Rede CIDSE.
12 abril 2015
Terra Santa, Testemunho
No
passado mês de fevereiro,
integrando um grupo de quase sessenta pessoas, tive o privilégio de ser
peregrina na Terra Santa.
Visitar os
lugares onde Jesus nasceu e que percorreu enriqueceu a minha oração e ajudou-me
a viver esta Quaresma e esta Páscoa. No entanto, não foram os lugares santos
que mais me fascinaram: nunca saberemos se foi exactamente naquele lugar onde
Jesus foi batizado
ou naquela pedra, na calma e verdejante Tabgha,
onde aconteceu a multiplicação dos pães e dos peixes. O que guardo destes
lugares é o que eles, para nós cristãos, evocam.
Foi bom
visitar os lugares ao redor do Mar da Galileia (Lago de Tiberíades)
onde Jesus passou grande parte da sua vida pública. Atravessar o deserto fez-me
compreender a beleza que aqueles lugares evocam e perceber o quão importante
são os momentos de refúgio e de encontro com o Pai nas nossas vidas.
Percorrer as
ruas de Jerusalém e rezar a via-sacra,
no lugar onde ela aconteceu,
foi também especial. Consegui ver
Jesus a percorrer
aquelas ruas estreitas e cheias de
comércio, numa cidade que também naquela altura seguia a sua vida quotidiana. Pude
experienciar, também, que é
possível o encontro com Deus no meio das agitações, distrações
e confusões que muitas vezes caracterizam o nosso dia-a-dia.
Rezar ao mesmo tempo que os muçulmanos são chamados a orar ou deparamo-nos
com o dia de Shabbat em que os
judeus são convidados ao descanso e ao encontro com Deus.
Somos convidados à
união com todos aqueles que connosco partilham o dom da fé.
Por último,
é impossível ficarmos indiferentes ao conflito israelo- -palestiniano e a todos
os cristãos perseguidos.
Pensar em
Belém é também recordar o muro que a separa de Israel, no
ícone de Nossa Senhora que Faz Cair
os Muros que se encontra no mesmo e
nas irmãs
beneditinas que nos acolheram. Contemplar ao de longe a Síria e o Egito
é também recordar todos os cristãos perseguidos, memória avivada pelos recentes
acontecimentos.
Peçamos a
Nossa Senhora que Faz Cair os Muros que abra os corações e que faça cair aquele
muro e todos
os muros que geram ódio e violência.
By
Sílvia Almeida
19 março 2015
São José, 19.março.2015
Assim como São José cuidou bem demais de
Maria e de Jesus, ele quer cuidar da nossa casa e família e de cada um de nós!
“José, Filho de Davi, não tenhas medo de
receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mateus 1, 20).
São José teve medo, teve receios,
dúvidas, mas nunca deixou de ser fiel a Deus. O homem exemplar, homem modelo
para cada um dos homens da face da Terra, modelo para as nossas famílias,
modelo de fé, de confiança de alguém que jamais tira o olhar de Deus.
Quem não tira o olhar de Deus pode
passar pelas sombras da vida e pelas tempestades que vêm ao longo do caminho
certo de que Ele intervém, que Ele fala com a pessoa de fé nem que seja pelos
sonhos, como falou ao coração de José.
José pensou em abandonar a Virgem Maria
não foi por covardia, foi mesmo por não entender [o que estava ocorrendo] e por
não querer atrapalhar. Que coração bom e generoso tem esse José! Ele poderia
denunciar Maria por pensar: “Como essa mulher engravidou dessa forma?”. Mas ele
conhece o coração dela e sabe que há algo divino acontecendo com ela; só não
sabe explicar o “como” nem “o porquê”, por isso se recolhe no silêncio de seu
coração. E é no seu silêncio que ele é visitado, no seu silêncio interior de
conformismo e de entrega a Deus que o próprio Deus fala ao seu coração, em
sonho, por intermédio de um anjo: “José, Filho de Davi, não
tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do
Espírito Santo”(Mateus 1, 20).
É como se Deus lhe dissesse: “José, eu
preciso de você, homem, para cuidar dos meus tesouros mais preciosos na Terra!
Eu preciso que você cuide de Maria, que você seja o seu esposo, que você a
acompanhe aonde quer que ela vá, porque muitas coisas estão por acontecer
ainda. Como eu preciso de você! Ah José, preciso de você para ser o guardião, o
pai do meu Filho na Terra!”. Prontamente São José se levanta e se coloca à
disposição do Senhor.
Assim como José cuidou bem demais de
Maria e de Jesus, ele quer cuidar de mim, da sua casa, quer cuidar da sua
família, quer cuidar de cada um de nós!
São José, rogai por nós!
http://homilia.cancaonova.com
15 outubro 2013
Recomeçar...
Após um período de interregno para férias, retomamos as
nossas reuniões quinzenais de CVX, numa atitude de renovação e compromisso,
deixado na última reunião de avaliação.
5ª Semana
É sempre bom o recomeçar, termos a humildade de reconhecer
que nem sempre damos espaço às coisas de Deus, mesmo quando a nossa atividade
no dia-a-dia seja mais reduzida, quer no período de férias ou em outra situação
qualquer.
O iniciar das reuniões de CVX, não é mais nem menos, o tomar
consciência do lugar que reservamos aos apelos do Senhor, em todas as dimensões
da nossa vida.
Recomeçar é a oportunidade que Deus nos dá diariamente, em
cada dia da nossa efémera existência humana, para nos deixarmos transformar e
moldar pelo Seu amor. Por intermédio da CVX partilhamos as nossas vivências
quotidianas, tendo sempre como objetivo comum estas interrogações: Qual é a
minha verdadeira missão como cristão nos dias presentes? Qual é meu papel como
membro da Comunidade de Vida Cristã?
A oração deve ter um espaço central como fonte primordial no
alimentar da nossa fé. Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio são o
testemunho desse compromisso, para além dos verdadeiros alicerces, onde assenta
toda a nossa espiritualidade.
O recomeçar é ter consciência de todas as nossas fragilidades
humanas e, com essas fragilidades, Deus faz-se sentir presente por intermédio
do Seu convite incessante, independentemente das mil e uma desculpas que
encontramos, para justificarmos a falta de confiança no Seu Amor.
Numa homilia o Papa Francisco
referiu: Quando não rezamos, fechamos as
portas ao Senhor para que Ele não possa fazer nada! Ao invés, diante de um
problema, de uma situação difícil, de uma calamidade, a oração abre as portas
ao Senhor para que Ele venha. Ele refaz as coisas, Ele sabe arranjar as coisas,
colocá-las no lugar. Rezar é isso: abrir as portas ao Senhor. Se as fecharmos,
Ele não pode fazer nada.
Que neste início do ano procuremos
encontrar através da oração, as resistências necessárias para não deixarmos
fechar a portas do nosso coração ao Espírito do Senhor.
Gilberto Pires,5ª Semana
17 março 2013
Quaresma - a mulher adúltera e os seus acusadores
S.
João (7,53-8,11) narra-nos o bem conhecido encontro de Jesus com a mulher adúltera e os seus acusadores. De tão sugestiva,
sigo de perto a leitura que S. Gaburro, faz deste relato, interessado,
como ele, em colher o timbre e a modelação da voz de Jesus como lugar de
revelação da verdade de Deus e da nossa própria existência. Aqui, o conteúdo
não seria acolhido sem a forma, neste caso, sem o modo de dizer e a sonoridade,
precisamente porque esta forma é já o conteúdo. A graça que salva assume o
timbre de uma voz que toca afectivamente, a eloquência de um gesto que
justifica a vida, a autenticidade de uma presença que restitui cada um à
verdade do que é. E, aí, em verdade, está Deus que salva-guarda e regenera a
vida.
Jesus
está sentado a ensinar. A sua voz en-sina, assinala precisamente porque imprime
um sinal. Mas eis que Jesus se cala e, em silêncio, deixa espaço para que
outras palavras se possam dizer e outras vozes se façam ouvir. Porém, as que
chegam agora são de acusação e de julgamento. São ditas sobre uma mulher
apanhada em flagrante adultério, exposta na impúdica praça de todos os olhares.
Num triste espectáculo público, circundam-na inúmeros dedos apontados, num
rebuliço acusatório insuportável. «De um lado, o vociferar agressivo, do outro,
o silêncio de Jesus. As vozes que se levantam trazem a ironia (“Mestre”), o
veredicto já dado (“Moisés mandou-nos lapidar mulheres como esta”) e a
armadilha (“Tu, o que dizes?”)». A esta provocação, «Jesus responde em silêncio
com o gesto de se curvar e de marcar a terra com o dedo» . Eis, então,
que, vinda do seio do silêncio, sensível e reflexivo, a voz de Jesus re-nasce.
«O burburinho das vozes encontra atento o ouvido de Jesus, mas, sobretudo, o
seu sentir, o horizonte com o qual ele está diante da vida», pre-sentindo o que
cada um sente. «Os tons, os timbres, a raiva, a vontade de juízo sumário
encontram hospitalidade e pro-vocam a sua voz». Então, levantando a cabeça e
rompendo o silêncio, Jesus diz: «O impecável de entre vós seja o primeiro a
atirar sobre ela uma pedra» (v.7). É «uma voz que dis-trai, no sentido em que,
com força, faz sair os seus interlocutores do ciclo vicioso» de um esquema
exclusivamente processual e jurídico. Poderia uma vida humana caber nesse
procedimento sumário? Poderia a verdade de Deus e a sua justiça esgotar-se
nessa ânsia de punição? Que satisfação seria dada ao criador a aniquilação tão
violenta de uma sua criatura? «Com uma delicadeza inaudita, a voz passa pelas
fendas da consciência». Con-vocado, Jesus con-voca. Pro-vocado, Jesus pro-voca.
Da «selva das vociferações mortíferas», nasce a «voz que quer a vida». Dada a
palavra ao excesso de sentido que faltava acolher, Jesus curva-se, de novo.
Quanta eloquência podemos colher neste gesto silencioso de se curvar, depois de
dizer palavras tão elementares. Capaz de recordar o essencial e, assim, de
interpelar, Jesus faz regressar o silêncio. Calam-se as vozes venenosas e
mortais. Baixam-se os dedos da acusação legal. Caem por terra as pedras prontas
a ferir, até à morte, em nome de um Deus que não se liga de afecto. A
autoridade e a modelação da voz parecem bastar para que Jesus revele quem é, de
onde vem e para onde aponta, revelando, ao mesmo tempo, a ambiguidade violenta
das vozes acusadoras e da sua religião, uma religião que não liga, só separa.
Tudo foi atravessado e ferido – o ouvido, as mãos, a consciência, o coração, o
passado, o presente, o futuro. Cada um é restituído a si mesmo, como se
ressoasse, novamente, essa pergunta das origens: «Onde estás?» (Gn 3,9). Um a um, partem de regresso à
casa da própria realidade – seja essa grande ou miserável, graciosa ou
desgraçada, é sempre daí que deverá partir quem desejar avançar. Vão, agora, em
silêncio, para que o sentido que ecoa na voz escutada possa ressoar no íntimo
da alma e, assim, faça nascer de novo.
Entretanto,
Jesus ficou sozinho, com a mulher. Colhendo a densidade do momento, disse tão
bem o poeta D. Faria. «Não turbam a água dos meus olhos/ As pedras que me
atiram sobre o corpo// As tuas mãos vazias este muro/ Branco me doem muito
mais» . A verdade de um e de outro encontram-se face a face. Deus
ali tão perto, na voz e no gesto deste homem de Nazaré. Quadro extraordinário e
comovente. Eis a forma do encontro entre o Filho eterno e a história ambígua de
uma filha. Eis a força da graça que salva a vida. Esta vida. Esta mulher.
Porque Deus não Se dá em abstracto, por uma humanidade indistinta, sem rostos e
as suas rugas nem biografias e as suas ambiguidades. «Mulher, onde estão?
Ninguém te condenou?» (v.10). «Ninguém, Senhor». «Também eu não te condeno».
«Vai». «Daqui em diante, não voltes a pecar» (v.11). «A voz de Jesus tem o
poder de restituir à mulher a sua própria voz, aquela que os acusadores lhe
tinham roubado» . Jesus dá a palavra, cede o lugar, abre espaço.
«Mulher!». A origem é recordada como promessa. O horizonte é reaberto como
possibilidade de feliz reconhecimento. À vida é restituída a sua bênção
originária. Pela voz e pelo silêncio, pelos gestos elementares e pela força da
presença, tão íntegra, tão humana, «Jesus atravessa esta página como um
fenómeno pneumático, alimento do Espírito criador, fenómeno musical que
liberta, num único som, notas divinas e notas humanas» . Na força e
na delicadeza deste encontro humano, pressentimos um Deus que crê em cada homem
e em cada mulher, que se compraz e se alegra com o seu nascimento e o seu
contínuo recomeço – Deus em contínuo acto de geração Ele que vive eternamente dando a
vida. Salvaguarda o desejo visceral de confiança que se dá e se recebe no
espaço vital do mútuo reconhecimento. Reconhecer-se
reconhecido num encontro humanamente conseguido diz o mistério de Deus
e o segredo mais intimo que mantém em vida cada vida que a este mundo venha e a
Deus se dirija.
P. José Frazão Correia, sj
A
dádiva de si narrada em Jesus.
Revelação de Deus e plenitude humana
Revelação de Deus e plenitude humana
(postado por Alice Matos)
30 setembro 2012
Reflexão
Sonata de Outono
E o outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É
quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado,
com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o
vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza
para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas
árvores, as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em
incríveis tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes
daqueles que se saboreiam no verão.
Lembro-me de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como
uma pequena sonata de outono:
O que é bonito neste mundo e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova
Neste arranque de outono, deixo-me demorar nas palavras: "a
doçura que se não prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de
muitas pessoas, sei que esta não é uma questão que se possa iludir. Há um
momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos
que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida
em que nos sentimos mendigos de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não
aconteceu.
Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é
uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob
tetos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica
adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível
nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também
surge aos 20 ou aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um
romance autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde
de mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos
alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso
se diz que não dependem propriamente da idade os outonos interiores que
atravessamos.
Existem é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo,
nos é tão intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e
largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos
trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma
desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai
espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse
é o olhar mais necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se
transfigura numa doçura/muito mais pura/e muito mais nova».
O outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é
sim um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a
"transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso
trabalho interior.
José Tolentino Mendonça
Foto: Serra da Estrela
31 maio 2012
Esperança: recusa do discurso fácil - Hermínio Rico, sj
Pede-se um discurso de esperança.
Pede-se em especial à Igreja. Fica cada cristão com o desafio de ajudar a dar
sentido às dificuldades de todos e de aumentar o ânimo colectivo. A fé cristã
tem recursos para transmitir essa esperança, acredita-se. E é verdade. Mas é
preciso ter cuidado para não cair rapidamente num discurso fácil, nas
aparências muito cheio de fé, mas de facto vazio e sem poder mobilizador,
podendo até correr o risco de ser alienante. Um discurso muito pouco cristão,
portanto. Oferta muito fraca seria.
A esperança cristã não é uma
simples crença que tudo vai correr bem, roçando a superstição numa enigmática
sorte que, vinda do céu, acabará por nos cair nas mãos. Ou um mero exercício de
credulidade que passivamente assegura que Deus nos virá resolver todas as
dificuldades. A esperança cristã não é uma aposta na probabilidade de um
milagre exterior. É, isso sim, chamamento a uma abertura confiante à
responsabilidade. A esperança não promete mudar nada por fora, mas muda
radicalmente a atitude da pessoa por dentro, no modo como encara os desafios
exteriores e lhes responde. A esperança cristã não altera a realidade em que a
pessoa vive, mas transforma profundamente a forma como a pessoa vive essa
realidade.
O fundamento da esperança cristã é
o poder da presença activa de Deus. Mas onde se mostra esse poder? A esperança
cristã não assenta numa convicção que Deus nos vai tornar as coisas mais
fáceis. Antes, acredita – e ao acreditar vai experimentando – que Deus nos dá a
força para arrostar mesmo com as coisas mais difíceis. Aposta que, na abertura
à relação com Ele, encontraremos confiança e resiliência para não temer e nunca
desistir. E isso vai-nos dando a certeza que nada nos destruirá, porque o poder
que nos sustenta é sempre mais forte.
A esperança salva-nos, antes de
mais, da paralisia do medo e da lamentação, da tentação da fuga e da descrença
nas nossas próprias capacidades. Ao defender-nos do cepticismo, no entanto, não
nos desviar o olhar da realidade, em toda a sua dura e crua verdade. Sem nos
dispensar dum realismo pragmático, a esperança chama à responsabilidade, ao
empenho, e mesmo ao sacrifício, e exige iniciativa, criatividade, acção.
A acção que se nos impõe pode
pedir-nos despojamento, retorno a um estilo de vida mais austero. Esperança não
é fazer-nos crer que não perderemos nada, mas assegurarmo-nos que, mesmo que
tenhamos de prescindir de muito do que consideramos imprescindível, há vida e
gosto por ela bem para lá dessa privação.
A esperança não esconde a crise nem
a pinta de outras cores. Mas não nos permite não fazer nada, antes nos impele a
agir, mesmo na fragilidade da falta de soluções garantidas. Fragilidade não é
impotência, é apenas convite a mover-se por um poder que não possuímos
completamente. Esse poder, se nos deixamos conduzir por ele, logo nos dirá que,
mesmo na fragilidade, somos mais fortes que as crises e acordará em nós
capacidades desconhecidas. Esse é o poder da esperança: desloca a nossa
confiança para um fundamento muito mais sólido do que o nosso ilusório domínio
sobre todas as coisas.
A esperança cristã é uma esperança
pascal, de passagem de morte a ressurreição. Passagem é começar num lado e
chegar até ao outro, mas é preciso percorrer todos os passos intermédios. A
passagem pascal não inventa atalhos nem se desvia da dureza do caminho, mas
encontra força para ir até ao fim, provando que a vida movida pelo amor é mais
forte do que cada uma a uma das ameaças que a confrontam. A esperança pascal não
anula as tribulações, mas dá força para as superar. Afirma-nos que somos
capazes. E aponta o triunfo de Jesus ressuscitado como fundamento e garantia.
A esperança põe-nos em atitude de
passagem. Mas só há passagem se não recuamos nem paramos. Para a frente. Vamos!
23.10.2011
http://www.vozdaverdade.org
(postado por Alice Matos)
03 dezembro 2011
Advento - Estamos de esperanças...
Sano di Pietro
Três figuras para o nosso presépio
A gruta escura, lugar do nascimento. No Natal de 1223, Francisco de Assis quis reproduzir, na localidade de Greccio, a gruta de Belém. Deveria haver uma manjedoura. Também uma vaca e um burro. Convidou os habitantes da terra e das redondezas para que viessem, na noite de Natal, ao lugar do nascimento. As suas tochas e velas haveriam de iluminar o escuro. E os cantos haveriam de romper o frio. Nessa noite de profunda alegria, Francisco queria ver com os próprios olhos como teria sido o nascimento do menino Jesus. Numa gruta queria contemplar a vinda do Verbo de Deus na nossa carne. No lugar de refúgio para quem não tem lugar, “il poverello” queria tocar a fragilidade e a força do nascimento do Salvador, d’Aquele que faz seus os lugares humanos mais corrompidos, os mais feridos, os mais incapazes.
Hoje, tal como a Francisco, esta mesma noite restitui-nos o olhar: podemos continuar a contemplar como em todas as grutas humanas, em todos esses lugares de escuridão e de morte, a vida divina continua a brilhar. E como faz nascer o canto. No lugar das nossas mortes, acontece o momento humano mais luminoso: o nascimento de um menino. Um nascimento absolve-nos da morte e restitui-nos à vida. No nascimento de Deus, renascemos.
Maria, a grávida de esperanças, está para dar à luz. Ponhamos nesta gruta uma mulher grávida, porque é grávida que Maria medita todas as coisas em seu coração. Deixada só pelo anjo da anunciação, reconhece que tudo tem o seu tempo. A sua gravidez também. Um longo tempo é necessário.
“Está de esperanças”, dizemos de uma mulher que espera bebé. Maria está para gerar na carne Aquele que é desejado há tanto tempo. Haverá sabedoria maior que a de acompanhar a gravidez das biografias e dos tempos? Tudo o que somos tem necessidade de uma longa gestação. Leva tempo a gerar o que devemos fazer nascer: uma criança, um livro, uma decisão de vida, uma vida inteira. Quanta história e quantas histórias foram precisas para que o Filho encarnasse no ventre de Maria? Quantas para que fosse dado à luz? E quanta história e histórias para que S. João chegasse a dizer que Deus é amor? Um corpo de menino, uma frase tão curta, mas uma longuíssima e dramática gestação. Muito tempo foi preciso para dizer tanto e tão sobriamente. E mais tempo precisamos ainda para que este mistério nos faça viver na Sua luz.
José, o homem bom que, no sonho, entrevê o mistério. Ao lado, talvez um pouco retirado, ponhamos José. Enquanto Maria medita, ele sonha. É no sonho que ouve. É no sonho que compreende e decide. “Não temas”. E José deixa de temer. Toma Maria consigo. Bastar-lhe-á dispor as coisas ao Mistério. Entra nele como quem fica de fora. Respeita-o como quem está dentro. O que se passa no ventre de Maria e o que se passará na gruta do nascimento não poderia acontecer sem o seu sonho, a sua presença, a sua distância. José acompanha. E basta-lhe. Tão ajustado, a sua justiça comove-nos.
Peguemos, então, com José numa candeia acesa e iluminemos a escuridão da gruta. Aproximemos os animais para que tudo fique mais aconchegado. Preparemos os cânticos. Maria está grávida. Em breve dará à luz. O seu menino, o Filho, nos será dado, Ele, a nossa luz e a nossa paz.
A Igreja que hoje refaz e se refaz no presépio. Amo muito a nossa expressão “dar à luz”. São palavras que colocam o nascimento sob o registo da dádiva e da claridade. Vimos à vida como quem é oferecido à luz. É verdade que, e não podemos esquecê-lo, o nascimento é também expulsão, obrigatoriedade de nascer. Finda a gestação, não podemos não nascer. No drama e na dor do parto, somos, por isso, impostos à vida. Nascimento, dom e imposição. Tudo já dado como um dom. Tudo ainda por fazer como um dever.
Hoje, imagino a Igreja como um presépio – lugar humano onde, em palavras e gestos, em arte e pensamento, se dá e se acompanha a gestação deste difícil milagre que é a vida. Uma gruta, talvez pouco digna, mas já com uma história extraordinária de dois milénios, onde cada um pode tomar o lugar que mais lhe convém. No centro, o Santíssimo exposto na nossa carne, no pão dos nossos sacrifícios e no vinho das nossas alegrias. Em redor, os anjos que cantam em todas as línguas. De joelhos, como Maria e José, com pastores e com magos, nós que O adoramos como nosso Senhor.
P. José Frazão, s.j.
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