A nossa Comunidade é formada por cristãos: homens e mulheres, adultos e jovens, de todas as condições sociais que desejam seguir Jesus Cristo mais de perto e trabalhar com Ele na construção do Reino, e reconheceram na CVX a sua particular vocação na Igreja (PG4)

15 outubro 2018

Palavras Com Ritmo, IV


Rui tem 43 anos, é casado e é pai de três filhos. Nasceu na Covilhã, onde vive e trabalha como professor universitário. Entrou em CVX em 2003, tendo feito o curso de animadores em 2005. Foi animador do grupo G.A.N.T. (2007-2008). Fez parte da equipa regional CVX-BI (2006-2008) tendo sido Presidente da CVX-BI (2009-2010). Fez o compromisso temporário em 2009. Participou na Assembleia Nacional 2010. Fez parte da equipa de serviço da ‘Vinde e Descansai’ (Semana Férias CVX-BI, 2016-2018) e recentemente foi delegado CVX.P à Assembleia Mundial CVX 2018. Atualmente é membro do grupo “5ªSemana” (CVX.BI) e faz parte da Equipa de Formação CVX-P.



“CVX, um Dom para a Igreja e para o Mundo”


(1) A Assembleia Mundial teve lugar em julho de 2018 em Buenos Aires.
Como foi o acolher da proposta como delegado na AM2018?
Podemos dizer que se foi preparando para "fazer-se sensível aos sinais dos tempos e aos movimentos do Espírito Santo" (PG6)?

A possibilidade de ser delegado à AM surgiu de forma ocasional. Uma sucessão de acontecimentos despertaram em mim a possibilidade de ser nomeado, traduzidos num desejo de maior serviço à CVX, e em aprofundar este caminho vocacional particular. Foi também num ano em que me disponibilizei a fazer parte da equipa de formação. E desse modo poder eventualmente participar na AM também era uma resposta da minha disponibilidade ao chamamento referido anteriormente.
Depois de saber que efetivamente seria um dos delegados, senti uma grande gratidão e alegria pela confiança deste envio da comunidade nacional. Confiança que também pedi ao Senhor de modo a sossegar o temor da responsabilidade, do desconhecido e de todas as inseguranças de ir até ao “fim do mundo”.

(2) Contextualizando com a celebração do 50º aniversário da CVX desde a sua renovação em 1967 (Dar Graças) e percebendo que procura cooperar com o Espírito Santo, como foi construída e rezada a partilha (expressando sempre um modo novo de olhar o tempo e as diversas situações) que fizeram ao longo desses 10 dias de AM?

A preparação da AM foi feita essencialmente a partir da leitura e oração dos documentos preparatórios (a convocatória propriamente dita, e os Projects 168 e 169). Ainda houve oportunidade para numa Assembleia de Responsáveis os delegados poderem ser “empapados” com os frutos da oração das diferentes comunidades regionais, precisamente sobre os dons recebidos ao longo da nossa história CVX, e o modo como os podemos comunicar à Igreja e ao Mundo, atualizando o carisma CVX nos dias de hoje.
Diga-se que o tema e a graça a pedir nesta AM vinham ao encontro das graças recebidas da última Assembleia Nacional cujas moções apontavam para a necessidade dum maior crescimento e compromisso de sermos CVX. Em certa medida, por orientação do Espírito Santo, a preparação da AM já estava a ser feita.

(3) O papado do Papa Francisco convida-nos a uma nova visão, profundidade e experiência do catolicismo contemporâneo, o qual pede uma verdadeira conversão da forma como nós, a Igreja, estamos presentes para nós mesmos e para o mundo.
Em AM foi sentido, vivido e frutuoso este convite? 
Exemplos concretos.

A AM viveu muito inspirada pela presença do Papa Francisco. Desde logo a escolha da Buenos Aires e do local, Colégio Máximo S.José, onde o P. Jorge Bergoglio foi aluno, professor e reitor  teve um sentido especial para todos os delegados. Depois as palavras de saudação que o Papa nos dirigiu onde nos convidou a darmos graças pelos dons recebidos e nos exortou a aprofundar o nosso desejo em sermos contemplativos em ação.
Todavia, penso que foi sobretudo a visão de uma Igreja evangelizadora, missionária e próxima, que o Papa Francisco nos tem convidado a aceitar e a transformar, que marcou profundamente os delegados da AM. Fomos agraciados com a presença de Austen Ivereigh, biógrafo do Papa, que precisamente nos ajudou a refletir nesta nova visão de Igreja, fruto de uma experiencia vivencial e de discernimento da Igreja da América Latina. E tivemos também a graça duma experiência concreta de igreja missionaria através do encontro com famílias e jovens da comunidade paroquial São José do Barrio San Miguel, onde pudemos vivenciar um pouco daquilo que o Papa Francisco sonha para a Igreja: acolhimento, partilha, misericórdia, reconciliação, alegria e Vida.

(4) “… este reconhecimento do dom e da graça que o Senhor vos concedeu nestes anos… deve levar-vos a uma humilde ação de graças, porque Jesus olhou para vós além das vossas qualidades e virtudes. Mas, ao mesmo tempo, pressupõe uma chamada à responsabilidade, a sair de vós mesmos e a ir ao encontro dos outros, para os nutrir com o único pão capaz de saciar o coração humano: o amor de Cristo. Que a “ilusão agnóstica” não vos desoriente!”
In MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO AO PRESIDENTE DO CONSELHO EXECUTIVO DA COMUNIDADE DE VIDA CRISTÃ POR OCASIÃO DA XVII ASSEMBLEIA MUNDIAL
Para agradecer, cair na conta de tanto bem recebido e valorizar os momentos que nos fazem avançar como Comunidade em Crescimento e Amadurecimento, que momentos fortes pode partilhar connosco?

A experiência da AM veio confirmar que quando somos verdadeiramente guiados pelo Espírito Santo o caminho é possível, apesar das diferenças, dificuldades e resistências. O ambiente típico de uma Assembleia (mesas e cadeiras em filas uns atrás dos outros) foi substituído por uma Comunidade que centrados em Deus e no Mundo, procurava aprofundar o que é isto de ser CVX, aqui e agora. A tenda onde nos reuníamos, passou a ser a tenda que Deus montou entre nós e habitou connosco naqueles dias, e juntos, guiados por Ele pudemos experimentar os frutos de uma única e verdadeira Comunidade Mundial, amigos no Senhor. Essa vivência foi possível pelo processo de discernimento comunitário que todos os delegados foram convidados a fazer, e desse modo deixámos de certa forma os nossos voluntarismos, méritos, obsessões e agendas pré-estabelecidas, para nos confiarmos ao Senhor, o verdadeiro anfitrião da AM.
Desta experiência destaco dois momentos fortes:

- Contemplação da nossa história de Graça.  Orientados pela Magdalena Palencia (México) e rezando a nossa fita temporal (desde a transição das Congregações Marianas até à AM Libano’2013), a história tornou-se vida, e vida com tanta riqueza, com tantas graças, mas também com crises e dores, próprias do amadurecimento. A CVX é verdadeiramente um dom de Deus e Deus tem guiado a CVX. 

- O perdão e a reconciliação. Os delegados foram convidados a rezar as paralesias e as sombras da CVX. Fomos chamados a um ato de humildade em reconhecer e partilhar as nossas infidelidades a este caminho em Igreja. Fomos chamados a reconciliar-nos com o olhar misericordioso de Deus que nos lembrou que, sem Ele e sem os outros, facilmente nos transformamos em estátuas sem vida. Foi também um momento de grande unidade e de compaixão uns pelos outros.

(5) Os delegados foram convidados a fazer parte de um processo formal de discernimento comunitário enraizado nos Exercícios Espirituais através da partilha espiritual.
O Senhor que convida ao Corpo, Corpo Apostólico, como foi a experiência: diferentes línguas, 204 delegados de a 63 das 67 comunidades afiliadas. 
Conte-nos, por favor.

O processo de discernimento comunitário foi a grande experiência que os delegados foram convidados a viver nesta AM. Tendo presente o caminho realizado ao longo destes 50 anos CVX, o convite de conversão da Igreja proposto pelo Papa Francisco e a realidade do nosso mundo de hoje (em que somos desafiados como leigos a assumir a realização do Vaticano II), a AM foi preparada para que em clima de discernimento, a CVX  confirmasse a sua identidade, vocação e missão.  
Tivemos a ajuda de uma equipa do ESDAC (Exercices Spirituels pour un Discernement  Apostolique Communautair) que nos guiou através da oração pessoal, da partilha em pequeno grupo e em plenário. Esta dinâmica muito conhecida da CVX, teve como principal desafio o exercício da denominada “2ª ronda”. Por vezes, nas nossas comunidades locais ainda há dificuldades em entender o que é a “2ªronda”, e por vezes o modo como é realizada não cumpre com o objetivo da mesma, considerando o discernimento comunitário. Na AM os delegados no seu pequeno grupo foram convidados a exercitar precisamente esta 2ª ronda. Foi pedido que após a 1ª ronda, da partilha objetiva dos frutos da oração pessoal, os delegados se descentrassem das suas partilhas e estivessem sensíveis às moções geradas pela escuta atenta das partilhas dos outros, de modo a serem guiados pelo Espírito no processo de discernimento, concretizado através de 1 frase curta e objetiva, ou 2 a 3 palavras, que seriam partilhadas depois em plenário. Em plenário (onde tínhamos a partilha de cerca de 30 grupos), mantinha-se esta atitude de quem procura estar atento aos sinais de Deus, buscar a Sua Vontade, e não tanto querer ser protagonista ou líder.
Foi uma experiência muito enriquecedora, e como referi anteriormente marcou o ambiente da assembleia, de forma que as próprias decisões e eleições decorreram com grande serenidade e comunhão. Além disso, resultante deste processo de discernimento, pode-se dizer que o Espírito confirmou a identidade CVX como comunidade laical inaciana e apostólica, e desafia a CVX a cuidar melhor deste dom de vida em Igreja, a partilhar a riqueza dos métodos e ferramentas inacianas, e a ir ao encontro dos outros para gerar vida.    

(6) Agradecendo a disponibilidade, o acolhimento e o compromisso em responder a todas as perguntas lançadas, que Graça a Pedir partilha connosco neste tempo próprio para regressar a Portugal (CVX-P) e ao gozo íntimo da vivência da AM.

Para que possamos em Comunidade CVX sentirmo-nos chamados e animados a aprofundar a nossa identidade, a partilhar humildemente o dom da espiritualidade inaciana e a sair para servir os mais necessitados a fim de seguir a Jesus mais de perto e trabalhar com Ele na construção do reino.

Unidos no Senhor,

By Sofia Preto
CVX-BI



11 outubro 2018

Ecos e desafios da Assembleia Mundial CVX


“O fruto é a experiência do processo”



A CVX-Beira Interior foi convidada pela CVX-Além Tejo a estar presente no dia de arranque das suas atividades, que aconteceu em Évora (Valbom), no passado dia 30 de setembro. Teve como pano de fundo os ecos e desafios emanados da Assembleia Mundial (AM), que tinha decorrido na Argentina, em julho último. Os referidos ecos e desafios foram naturalmente trazidos por quem tinha experienciado na primeira pessoa aquele encontro mundial: o Rui Brás, da nossa CVX-BI, que foi delegado à AM 2018 e o P. Hermínio Rico, Vice-Assistente Mundial da CVX.
O Rui apresentou o seu testemunho deixando transparecer a gratidão por tanto bem recebido na qualidade de delegado, sublinhando como o mais marcante na Assembleia a graça de ali se ter vivido uma experiência profunda de discernimento, individual e comunitário. E de facto, somos uma comunidade inaciana, o nosso Carisma CVX enfatiza o pilar da espiritualidade, cristocêntrica, considerando os Exercícios Espirituais de Santo Inácio como instrumento específico e reconhecendo-se como particular necessidade a oração e o discernimento. Foi esta a proposta para a restante agenda do dia, a de experienciarmos, à luz do que aconteceu nos trabalhos da Assembleia Mundial, momentos de discernimento pessoal e comunitário!
Partindo dos frutos da Assembleia foi-nos pedido que rezássemos e discerníssemos, em tempo de recomeço de um novo ano CVX, o que nos era pedido como membros deste corpo. E este desafio aconteceu depois de um enquadramento do P. Hermínio sobre o caminho de 50 anos da CVX e o modo como foi discernida, desenhada e lançada esta Assembleia, como oportunidade de rezar o desejo de um maior aprofundamento e integração na vivência do nosso Carisma CVX no mundo de hoje. Assim, depois de um tempo de oração individual passámos para os pequenos grupos onde deveríamos pôr em prática o discernimento comunitário. Pudemos constatar as dificuldades e os obstáculos que ainda suscitam em nós este “processo”, o do discernimento, que supostamente deve ser a base do nosso modo de ser CVX, na partilha de vida rezada nas nossas reuniões, no tempo de oração pessoal no nosso quotidiano…
O P. Hermínio acolheu as nossas dúvidas sentidas naquela tarde no desenrolar do processo de discernimento comunitário repetindo uma frase que ainda hoje ecoa em mim: O fruto é a experiência do processo. Veio-me à memória o modo semelhante como foram conduzidos os trabalhos na nossa última Assembleia Nacional CVX-P, em 2017 onde também nos foi proposto esta dinâmica de discernimento comunitário, depois da escuta do que eu rezo, uma “2ª ronda” onde importa a escuta do que o grupo reza. Senti-me agradecida por nova oportunidade de crescimento, aprendendo e interiorizando um mais adequado recurso à 2ª ronda que, a meu ver, por diversos motivos nem sempre é compreendida nem realizada da melhor forma nas nossas reuniões CVX… ainda temos muito a crescer…mas o caminho vai sendo construído se nos abrirmos à Graça, aos dons de Deus! Agradeço à CVX Além Tejo o acolhimento à CVX-BI neste dia que foi para mim muito rico por tudo o que aqui fui partilhando e que trago como “regalo”… sobretudo por me sentir confirmada, reconhecendo a CVX como vocação pessoal na Igreja.
Saibamos nós agradecer e valorizar a CVX, este dom para a Igreja e para o mundo, que Deus coloca na nossa vida para nos ajudar a seguir Jesus Cristo mais de perto e trabalhar com Ele na construção do Reino.
                                                                                          
By Ana Teresa, Quinta Semana
                                                                                                                                                                                                                                                                           



07 outubro 2018

Covilhã, um lugar de bênção no meu percurso de seguimento do Senhor


The Road to Emmaus por Daniel Bonnell

"A Covilhã é para mim neste momento a Galileia, a Terra Santa, onde o Senhor com a Cruz às costas me precede e se faz encontrado, onde me convida a segui-Lo e a servi-Lo em cada uma das pessoas que em cada dia colocará no meu caminho."

Sérgio Diz Nunes, sj


Gabriela, escreveu assim:

No dia 30 de setembro de 2018, o meu querido tio Sérgio, tomou posse como novo Pároco de São Pedro da Covilhã, numa cerimónia presidida pelo Senhor Bispo da Guarda.

Tocou-me especialmente a sua reflexão final, na missa, onde agradeceu a nova missão, a “calorosa recepção beirã” que teve e alegria por ter sido chamado a servir o Senhor nesta comunidade.

Durante o almoço, comprovei a importância e a força dessa comunidade. Fomos muito bem recebidos, com alegria e amizade, como se fôssemos da casa. Fui abordada por várias pessoas que agradeciam pela chegada do meu tio, e senti-me pequenina no meio de tanto amor e gratidão.

Foi, sem dúvida, um dia para festejar e agradecer.

By Gabriela Botelho

04 outubro 2018

Comunhão Cristã, Abertura CVX-BI

Este ano tive a enorme alegria de estar presente no encontro de início do ano da Comunidade CVX da Beira Interior (BI).
O dia iniciou com uma Eucaristia, celebrada pela comunidade CVX da BI com a Comunidade da Paróquia de São Tiago, na Covilhã. Uma celebração na qual a Sofia e o António fizeram os seus compromissos temporários, num testemunho cheio de empenhamento e emoção, expresso com enorme beleza entre a concentração formal de um e as lágrimas do outro em discreta humildade cristã.
A consolação da Eucaristia e dos compromissos que tive o privilégio de testemunhar, continuou a ser ‘alimentada’ no almoço partilhado que se seguiu. Uma refeição na qual pude viver a comunhão cristã da partilha dos alimentos, numa mesa cheia de ofertas preparadas pelos membros CVX e numa refeição apresentada com beleza, pormenor e cuidado, num acolhimento cheio de Amor, de entrega. A oração de bênção que precedeu o início deste almoço de ‘amigos no Senhor’ teve um significado muito especial para mim.
Seguiu-se o testemunho do Rui Brás, delegado da CVX-Portugal à Assembleia Mundial da CVX (que teve lugar em Buenos Aires, nos últimos dias de Julho passado), que nos encaminhou numa ‘visita guiada’ a cada um dos dias da Assembleia Mundial, em imagens acompanhadas do seu testemunho pessoal, que nos permitiu viver um pouco o caminho percorrido pelos delegados, e conhecer melhor a CVX, na sua universalidade, não apenas através da nossa inteligência, mas também do nosso coração e do nosso entendimento, sublime! Muito obrigada Rui!
E todo este dia foi vivido com a alegria fraterna de quem é filho de Deus, num ambiente de comunidade Cristã, de irmãos no Senhor. Agradeço à comunidade CVX da Beira Interior e dou Graças a Deus pela sua vivência fraterna, que me encheu o coração. 
Bem hajam!
By Isabel Porto
EN CVX_P

21 setembro 2018

MAIS

Carlos nogueira

JUNTO AO CHÃO I CAPELA DO RATO
Lisboa 26 julho / 09 setembro


capela
escória de ferro, ferro, sal, luz,
o som do vento e da água que corre,
bonança


Quero partilhar convosco aquilo que me foi dado viver aquando da visita a esta exposição – JUNTO AO CHÃO na Capela do Rato. Fi-lo acompanhada pela minha filha Clara e por uma amiga, Sílvia. Mas, aquilo que aqui escrevo prende-se com a minha experiência individual, única e de uma interioridade quase escancarada.

Ao entrar na Capela senti um misto de sensações, passámos da luz para a sombra (tudo estava escuro, chão e capela) mas, algures na Capela uma “tábua rasa” vazia mas de Luz. O vazio não mergulhou em mim, mas a Luz levou-me longe e para o mais profundo das vestes da Transfiguração. A Luz plena, inteira e serena no meio físico do escuro e do chão forrado a escória de ferro. 


A caminhada que iniciei foi no total conforto do meu calçado, sentindo a irregularidade dos meus passos e ouvindo os mesmos – passos que se misturavam de forma sonora na escória de ferro. Nas paragens que fiz ao longo do percurso físico da sombra e Luz fui ouvindo o som da água e do vento… envolvem-nos e convidam-nos a outros lugares, cá dentro… mais fundo… às memórias e ao meu património humano… senti que volvi ao útero de minha mãe, a Água Viva e aos batimentos cardíacos, o vento do Sopro da Vida. Regressei à maternidade gerada não criada de Deus Pai que nos desenha no seu coração e nos conhece no mais íntimo do mais íntimo. Avançava e chegada à “tábua rasa”, à Luz… eis o Sal, aquele que dá sabor à Vida. Toquei-lhe, deslizei as minhas mãos por ele e permiti deixar-me salgar pela Luz de Sal que o artista pensou e nos ofereceu como um chegar e um devolver ao quotidiano.

Depois, troquei uma palavras com a Sílvia e resolvi despir-me do conforto do calçado e caminhar… a escória é dura, ríspida, desconfortável… e tanto e tudo tão difícil ou que me leva a tomar consciência das minhas fragilidades… aqui, depois de uns passos… tive a sensação das dores de parto. Nasce para a Vida, nasce para a Luz e voltei ao Sal. Contemplei o seu mistério, tentei perceber que eco criava em mim… o simples, o humilde e o contínuo convite ao Ser.

é preciso ir das coisas que se veêm e não existem
às coisas que existem e não se veêm

SÃO JOÃO DA CRUZ

Sofia Preto
CVX-BI




Há convites que me chegam e não hesito um segundo em aceitar. Assim foi com este convite feito pela Sofia Preto para ir espreitar a instalação "Junto ao Chão", do Carlos Nogueira, que esteve na Capela do Rato de 26 de Julho a 9 de Setembro. "Escutar os próprios passos." Entrar numa capela e escutar os meus passos, pareceu-me logo uma provocação ao espírito e aos sentidos.

Quando chegámos à entrada da capela não sabia quem de nós estava mais curiosa. Duas cortinas cinzentas abriram a porta dos sentidos, como se estivesse a entrar dentro de um espaço que me é familiar e que se tinha transformado num não lugar. Já não era só uma capela, era um espaço de sentir, de curiosidade, de mistério. Numa espécie de antecâmara fui imediatamente impelida a escutar. O som da água ecoava como convite a lembrar-me da minha sede. Essa sede de caminho, de perguntas, de desconhecido, essa sede que me faz ter vontade de encontrar-me com a fonte, uma sede que me chama a percorrer o caminho.

Decidi despojar-me o mais possível deixando a mala e os chinelos à entrada. Queria caminhar leve, descalça, sentir o caminho com toda a sua dimensão. 


O primeiro impacto com as pedras feitas de escória de ferro escuras, frias, angulares, ruidosas, fizeram-me parar, logo ali, no princípio, para me colocar num posição de humildade e aceitação, em que o questionamento foi inevitável. "- Onde estou? Quem sou eu aqui e agora? Para onde quero ir? O que procuro?" 

A luz ténue e sombria adivinhava subtilmente o espaço, o som da água e do vento retinham a minha atenção no que estava fora de mim. Ergui a cabeça e contemplei o que estava por vir. Ao centro encontrava-se um objecto rectangular, desenhado de uma brancura que se destacava pela iluminação precisa. Não conseguia perceber o que era mas estava ali, a convidar-me, a atrair-me a si, a pedir-me para fazer o caminho até ele. Lembrou-me, pela forma que tinha, o sepulcro vazio de Jesus, o que me colocou no papel das mulheres que chegaram à gruta e se depararam com a ausência.

Como metáfora da vida, a cada passo, uma escolha, a cada escolha, uma sensação, a cada sensação um significado. Nenhum passo foi ausente de dor, às vezes colocava os pés em zonas mais difíceis, com pedras maiores e instáveis, obrigando-me a demorar, a encontrar o equilíbrio, a sentir na lentidão a dor a chegar e os impulsos que isso provocava em mim.

Fui ouvindo também os passos dos que estavam ali presentes e percebendo como eram diferentes dos meus. Uns mais rápidos, outros mais ruidosos, outros mais pesados. Percebi que cada um traz uma intenção diferente e isso reflecte-se na forma como caminhamos. Que escolhemos trajectos diferentes para chegar ao mesmo lugar e que todos somos atraídos pela luz, como borboletas.

Ao chegar ao objecto iluminado dei-me conta que a brancura era feita de sal. O sal da vida, a purificação, a limpeza. Toquei-lhe, não resisti. O contraste do branco do sal com a cor da pele das minhas mãos e dos meus pés, o reconhecer-me viva e cada vez mais a certeza de que o caminho é feito de luz e sombra, de vida e morte, de presença e ausência, de Mistério e Fé. 


No caminho de volta para a saída, os meus pés estavam doridos, dormentes e tão silenciosos quanto eu. Quando achava que já não havia nada de novo para sentir, fui surpreendida com a sensação de pisar, ainda descalça, o chão liso das escadas que ligavam à antecâmara e quando saímos para a rua, pude sentir cada passo na calçada como se fosse a primeira vez, com um sentimento de gratidão pelo terreno que piso todos os dias, por ser tão suave que nem reparo nele.
Escutar os próprios passos... sim, agora escuto. 



Sílvia Balancho
Setembro 2018


15 setembro 2018

Palavras com Ritmo, III


Sofia nasceu em Castelo Branco, é a filha mais velha de três irmãos e algures no tempo foi tocada e chamada a Servir. Participou nas Jornadas Mundiais em Roma, em 2000 e em 2002 partiu com as Religiosas do Sagrado Coração de Maria para um mês de missão no Gurué (Moçambique). Foi mãe com o nascimento do Francisco e da Clara, que são fonte de imensa alegria e gozo e aos quais dedica quase toda a sua vida. Em Castelo Branco, ano de 2011, entra para a Comunidade de Vida Cristã, da Beira Interior (CVX-BI). Desde de 2013 que é animadora do Grão de Mostarda, dando uso à formação na Espiritualidade Inaciana. Em 2016 ficou responsável pela área da Comunicação da CVX-BI. Em 2018 faz o seu Compromisso Temporário em CVX onde se sente chamada a Ser em Igreja e se identifica com este Modo de colaborar na missão de Cristo. É voluntária no Banco Alimentar e facilitadora no RETIRA-TE, A INTERIORIDADE NA LIDERANÇA (EU!). Tem procurado afinar os seus conhecimentos na área do Relaxamento, Musicoterapia, Coaching e Mindfulness (certificação ReConstruir) para Mais Amar e melhor Servir!



(1) No próximo mês de outubro na Casa de Soutelo é facilitadora de um fim de semana com um tema que desperta a atenção e que nos interpela: Retira-te, A Interioridade na Liderança (EU!).
Como surge este fim de semana?

O Retira-te, A Interioridade na Liderança surge de um despertar e tomar consciência de que o dia intenso, cheio de tarefas e esgotante, tira ou retira a essência aos gestos, palavras e pensamentos. Propõe o olhar para dentro, para o que nos habita e constrói como Pessoa. Assim, criámos compromisso e responsabilidade para com o Eu conhecido, mais maduro e afinado, acolher e vivenciar aquilo que nos é dado viver. O Retira-te é facilitado por mim que abordo a Interioridade e por uma amiga, Sandra Costa, que aborda a Liderança.
Também decidimos que o modo de proceder como resposta ao acolhimento imediato da Casa de Soutelo, à confiança depositada em nós (Sandra & Sofia) e à nossa consciência de que juntos somos mais fortes (há sempre uma oportunidade para ajudar quem está mais fragilizado) 3% do valor deste fim de semana será entregue a uma Obra da Companhia de Jesus em Portugal - Colégio da Imaculada Conceição, Cernache (CAIC).

A que convida?

Convida a Parar! Para conhecermos, amadurecermos e afinar o Eu! Existem pistas de quem facilita para ajudar a ser mais inteiro na consciência, a exercitar e a colocar a render tudo aquilo que Sou e possuo.

Para que fim?

Pretende-se voltar ao quotidiano, mais uno e inteiro!
Conhecer as ferramentas e estratégias que permitem acolher e aceitar aquilo que a Vida me permite viver.
E ser comprometido(a) na mudança que resulta quando se experiencia e vivencia as dinâmicas, as partilhas e o espaço criado para ir mais além no nosso território interior.
Cito Fernando Pessoa.

'Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.'

(2) E o que é a Interioridade?

Penso que numa primeira abordagem todos sabemos que existe, embora quase ninguém consiga dizer coisas muito concretas sobre ela.
Numa primeira tentativa recorro a expressões utilizadas com alguma frequência por cada um de nós «lá dentro do meu coração» ou «no fundo do meu coração», sendo muito vagas já demonstram em si um existir interior. E que para nós é importante, apesar da sua pouca nitidez e forma, e parece ser maior que tudo aquilo que nos rodeia.
Li: “A Interioridade é o mistério de nós mesmos, de cada um de nós mesmos. Um mistério que está tão perto como uma floresta virgem que começasse no fundo de nosso quintal, mas que nós ainda não exploramos.”


(3) Faz sentido falar sobre Interioridade nos dias de hoje?

Segundo a tradição bíblica, o que mais nos desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de crer. 
Há atualmente uma imensidão de situações que nos conduzem a situações mais massificadas, de relações humanas mais dinâmicas e até um certo ponto menos vinculativas e a uma correria fugaz do tempo e do tanto que achamos que temos que fazer. Estas são aquelas que nos desumanizam e nos retiram aquilo que existe de mais profundo em nós «a nossa maior riqueza espiritual», a Interioridade.
Para crescermos em humanidade necessitamos de Viver humanamente! Deixar o Espírito circular livremente por todos os ‘lugares’ da nossa morada interior, arejando-os, ventilando-os, religando-os, dando-lhes vida, reorientando-os. Precisamos de nos abrir a uma verdade maior quanto a nossa humanidade, ou seja, que todos os nossos ‘lugares’ merecem serem visitados, olhados, ouvidos e abraçados; que cada aspeto de nossa vida contém uma dádiva maior do que podemos enxergar e cada sentimento merece uma expressão saudável.


(4) Jesus disse: “O reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17, 20-21)
Como conduzir-nos a esta consciência e verdade? Exemplos concretos.

Esta consciência de que Deus habita em nós está presente na dinâmica e proposta de vida de Inácio de Loyola, que nos alerta para uma identificação com Jesus «procurando e encontrando Deus e a Sua vontade em todas as coisas».
Das ferramentas inacianas, humildemente, falo de dois exemplos concretos, a Oração Pessoal e os Exercícios Espirituais:

- a Oração Pessoal convida a um diálogo e a uma dinâmica íntima para que na conversa “comunicação amiga com Deus”1 possa falar e escutar. Deixar-me conduzir no mais profundo de mim ativando as “Graças e Dons”, despertar os impulsos para o “MAIS”, reacender a força dos desejos, a inspiração para a criatividade... E depois, olhar o concreto, procurando em cada momento o que é mais urgente, necessário e que toque um número mais significativo de pessoas “sal e luz do mundo”;

- os Exercícios Espirituais tocam, ativam, assumem e fortalecem as estruturas profundas do meu Ser e, assim, dão novo sentido à minha existência. É um caminho que se percorre, uma maneira vital de dispor-me internamente à ação do Espírito e ordenar e encontrar a vontade de Deus.


(5) A Irmã Maria Emília Nabuco fala de Educar para a Interioridade:
O desenvolvimento espiritual tem um papel importante no desenvolvimento do ser humano, no desenvolvimento da religiosidade. Religião significa re-ligar, ou seja, estabelecer relação com algo ou alguém, neste caso com Deus.”2
Como, mãe e catequista, procura estabelecer este ‘re-ligar’?

Primeiro respeitando os meus filhos e todos com quem estou! Depois, talvez de uma forma ‘altamente recomendável’ proporcionar momentos, partilhas e vivências que os ajudem a sintonizar- 
-se com o seu Eu. Fazendo eco da frase de Santo Agostinho “Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.", partilho algumas dinâmicas que podem ajudar e que estão sempre sujeitas a ajustamentos:

- ao jantar, convido os meus filhos a verbalizar dois pontos positivos do seu dia e dois pontos menos positivos;

- ao domingo, depois da Eucaristia, falo com eles sobre aquilo que mais os tocou e me tocou (as leituras, os cânticos e a homília);

- rezar com a minha filha ao deitar;

- com o meu filho, ateu, proponho-lhe Campos de Férias Católicos e informações/pesquisas que o ajudem a esclarecer ideias e conceitos. Partilho uma curiosidade muito recente... o único que em sala de aula [História] sabia que com o Concílio de Trento surgiu a aprovação da Companhia de Jesus.


(6) Num despertar para “Educar para a Interioridade” quais lhe parecem ser os desafios da sociedade e do sistema de educação?

Penso que estamos no Tempo Certo para o fazer!
É este o desafio, o de acolher e de abraçar Este Tempo.
É único e bastante interpelador, porque estamos perante Pessoas em formação que serão os homens e mulheres do amanhã. O amanhã que lhes exige cooperação, compromisso, respeito pela sua unicidade, compromisso nas suas decisões e sabedoria em gerir tudo isto – aqui está a Interioridade e a Liderança de todos os Dons e Graças recebidas!
Também percebemos o património presente no "caminho inaciano" que contém as três vertentes essenciais da Liderança: "Ser espiritual (ser líder faz parte de uma caminhada interior de discernimento), Ser sapiencial (o líder conhece a realidade e sabe ler com clareza os sinais dos tempos) e Ser prática (o líder tem consciência que está ao serviço de uma missão concreta). Estas características são essenciais tanto numa comunidade eclesial, universitária ou empresarial como também em qualquer comunidade inserida no mundo em que vivemos." Adolfo Nicolàs,sj.
E os desafios são o voltar ao simples, ao menos e ao mais profundo.
Como voltar a tudo isto? Com calma, serenidade e muita criatividade… sabendo que “Deus providenciará” e é “o caminho, a verdade e a Vida”.


(7) Agradecendo a disponibilidade, o acolhimento e o compromisso em responder a todas as perguntas lançadas, que Graça a Pedir partilha connosco neste tempo próprio para regressar ao mundo e internamente, (re)ligar-se e (re)encontrar-se com todos e tudo.

“O que Te peço Senhor, é a graça de ser.
Não te peço sapatos, peço-Te caminhos.
O gosto de caminhos recomeçados, com as suas surpresas, suas mudanças, sua beleza.
Não Te peço coisas para segurar, mas que as minhas mãos vazias se entusiasmem na construção da vida.
Não Te peço que pares o tempo na minha imagem predileta, mas que ensines os meus olhos a encarar cada tempo como uma nova oportunidade.
Afasta de mim as palavras que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.
Mesmo quando não posso ou não tenho sei que consigo ser, Ser simplesmente.
É isso que Te peço Senhor.
A graça de Ser de novo."


Padre Tolentino Mendonça

1 Santa Teresa de Ávila, Livro da Vida 8,5
2 Maria Emília Nabuco, A educação da interioridade das crianças dos 0 aos 6 anos


[Agradeço à Sofia o seu acolhimento, alegria e disponibilidade em colaborar nesta iniciativa.]


Unidas no Senhor,

By Maria José Madeira
CVX-BI