A nossa Comunidade é formada por cristãos: homens e mulheres, adultos e jovens, de todas as condições sociais que desejam seguir Jesus Cristo mais de perto e trabalhar com Ele na construção do Reino, e reconheceram na CVX a sua particular vocação na Igreja (PG4)
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17 fevereiro 2016
10 fevereiro 2016
03 abril 2015
02 abril 2015
Novo Mandamento
«Um novo mandamento vos dou: que
vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei, vós também vos deveis amar
uns aos outros. É por isso que todos saberão que sois meus discípulos: se vos
amardes uns aos outros.»
Jo 13,34-35
O
dever sem amor torna-nos mal-humorados;
o
dever cumprido com amor torna-nos perseverantes.
A
responsabilidade sem amor torna-nos pouco delicados;
a responsabilidade assumida com amor torna-nos
solícitos.
A
justiça sem amor torna-nos duros;
a justiça exercida com amor torna-nos fiáveis.
A
educação sem amor torna-nos contraditórios;
a educação recebida com amor torna-nos
pacientes.
A inteligência sem amor torna-nos astutos;
a inteligência praticada com amor torna-nos
compreensivos.
A
amabilidade sem amor torna-nos hipócritas;
a
amabilidade que brota do amor torna-nos bondosos.
A
ordem sem amor torna-nos mesquinhos;
a ordem mantida com amor torna-nos generosos.
A
perícia sem amor faz-nos querer ter sempre razão;
a perícia distribuída com amor torna-nos dignos
de confiança.
O
poder sem amor torna-nos violentos;
o poder detido com amor torna-nos serviçais.
O
prestígio sem amor torna-nos altaneiros;
o prestígio assumido com amor torna-nos
humildes.
Os
bens sem amor tornam-nos avaros;
os
bens utilizados com amor tornam-nos desprendidos.
A fé
sem amor torna-nos fanáticos;
a fé vivida no amor torna-nos pacíficos.
Poema
de autor desconhecido citado por Hans Küng,
in «Aquilo em que Creio»
01 abril 2015
29 março 2015
18 março 2015
Quaresma com São Bruno
«Somente
dando a própria vida a Deus, e por Ele aos outros, a vida se multiplica e se
comunica.»
São Bruno
09 março 2015
Quaresma, Momentos de Oração
Iniciativa da Paróquia de São Pedro, Covilhã.
"Sede sempre alegres. Orai sem cessar. Em tudo dai Graças. Esta é, de facto, a vontade de Deus a vosso respeito em Jesus Cristo. Não apagueis o Espírito."
"Sede sempre alegres. Orai sem cessar. Em tudo dai Graças. Esta é, de facto, a vontade de Deus a vosso respeito em Jesus Cristo. Não apagueis o Espírito."
(1 Tess 5, 16-19)
03 março 2015
28 fevereiro 2015
Pede à Quaresma ...
«Seis dias depois, Jesus tomou
consigo a Pedro, Tiago e João, e os levou, sozinhos, para um lugar retirado
sobre uma alta montanha. Ali foi transfigurado diante deles» (Marcos 9, 2).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho da
montanha. Para que ouses subir ao lugar do encontro com o Deus da vida e da
história. Na montanha contemplarás o Rosto. E fixarás nele o olhar. E
descobrirás nele o teu rosto. E contemplarás todos os horizontes. Os do teu
coração e todos aqueles onde o humano se espraia em tantos desafios.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho da
montanha. E ousarás descer para que o teu olhar de encantamento incendeie a
vida por onde passas. E sejas sinal de ressurreição.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do
poço de Sicar. Sentado à beira desse lugar de encontros singulares está Alguém
que te oferecerá água viva. Outrora uma samaritana deixou-se enamorar pelo
olhar e pelo coração livre de um sedento. Também ela não ousou recusar dessa
água que sacia todas as sedes.
Pede
à Quaresma que
te ensine o caminho do poço de Sicar. Para que Deus se sente contigo e te
sacie. E o teu poço-coração possa recriar-se e ser fonte. E alimentar outras
nascentes. Também as que teimam em não jorrar. E saciar todas as sedes e as de
todos os que se cruzam com a borda do teu poço.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho para o
abraço de Deus. O caminho para esse lugar onde a festa nunca termina. O caminho
para esse lugar de onde saíste para viver a vida do sem rumo e do sem sentido.
Porque querias ser livre. Porque querias escutar as mil melodias que ainda não
tinham sido tocadas no teu coração. Em vez disso a vida empurrou-te para um
lugar de desespero onde nem as bolotas eram tuas amigas.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho para o
abraço de Deus. E ousa recomeçar. E ser filho. E vestir o traje da festa que o
Amor prepara para ti a todo o instante.
«Não é preciso que vão embora.
Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mateus 14, 16).
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do coração do irmão. Daquele que está debruçado sobre o próprio coração em sangue. O coração daquele que a vida atirou para a beira da estrada e que agora espera um qualquer samaritano. O coração e a vida daquele que este tempo defraudou espera que tu sejas consolo e abrigo. Também abraço.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho do
coração do irmão. E ousa partilhar da tua pobreza. Daquilo que mesmo fazendo-te
falta suavizará a dor de quem já nada tem. De quem já não tem onde morar ou de
que se alimentar.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho de
Jerusalém. A cidade santa espera que os teus passos sigam firmes na senda
d’Aquele que já fez o mesmo caminhar. Arrisca nesse seguimento. Mesmo que a luz
teime em esmorecer dentro de ti. Mesmo que te impeçam de caminhar atrás do
Mestre. A cidade santa espera por ti.
Pede à Quaresma que te ensine o caminho de
Jerusalém. Porque a vida e a felicidade que tanto desejas também passa por lá.
Não ouses voltar as costas à cruz que a cidade te entrega. Segue atrás desse
desejo de vida que nenhuma dor será capaz de enterrar. Pede à Quaresma que te
ensine o caminho de Jerusalém. E deixa-te morrer. A terra que és será nova
quando o milagre do grão de trigo irromper.
Diretor espiritual do Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, Braga
23 fevereiro 2015
20 fevereiro 2015
18 fevereiro 2015
Quaresma 2015
Tempo de renovação para a
Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um
«tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que
antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo
4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um
de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O
deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar
indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco!
Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos
outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem
as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na
indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que
não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão
mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um
mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.
Quando o povo de Deus se
converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história
continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me
quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.
Dado que a indiferença para
com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos,
temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam
a voz para nos despertar.
A Deus não Lhe é indiferente o
mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o
homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de
Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra.
E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação
da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna
eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si
mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo
n'Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se
se vir rejeitada, esmagada e ferida.
Por isso, o povo de Deus tem
necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si
mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a
vossa meditação.
1. «Se um membro sofre, com
ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja.
Com o seu ensinamento e
sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe
esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode
testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus
revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar,
como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de
Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe
lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas
exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode
fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa «tem a
haver com Ele» (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.
A Quaresma é um tempo propício
para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele.
Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos,
nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de
Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta
frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo,
pertence a um único corpo e, n'Ele, um não olha com indiferença o outro.
«Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é
honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1 Cor 12, 26).
A Igreja é communio
sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é
comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e
todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos
se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação
nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas
tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo
mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as
nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que
todos nos abramos à sua obra de salvação.
2. «Onde está o teu irmão?»
(Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades
Tudo o que se disse a
propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das
paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura
experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que,
simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que
conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou
refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas
que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?
Para receber e fazer
frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras
da Igreja visível em duas direcções.
Em primeiro lugar, unindo-nos
à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se
reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de
Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos
parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu
não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui
sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já
contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a
indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de
Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos
caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu
pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só
homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja:
«Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar
pela Igreja e pelas almas» (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).
Também nós participamos dos
méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso
desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado
é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de
coração.
Em segundo lugar, cada
comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a
sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua
natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.
Esta missão é o paciente
testemunho d'Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A
missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela
estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1,
8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo
morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles.
E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a
humanidade inteira.
Amados irmãos e irmãs, como
desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas
paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do
mar da indiferença!
3. «Fortalecei os vossos
corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis
Também como indivíduos temos a
tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens
impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo
toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos
absorver por esta espiral de terror e impotência?
Em primeiro lugar, podemos
rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da
oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se
celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março,
pretende dar expressão a esta necessidade da oração.
Em segundo lugar, podemos
levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a
quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A
Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de
um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade
que temos em comum.
E, em terceiro lugar, o
sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do
irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos
irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das
nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem
de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos
leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.
Para superar a indiferença e
as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem
este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos
convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração
misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso
precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um
coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que
conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as
suas limitações e se gasta pelo outro.
Por isso, amados irmãos e
irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum
secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das
Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e
misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem
cai na vertigem da globalização da indiferença.
Com estes votos, asseguro a
minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram,
frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que
rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!
Vaticano, Festa de São
Francisco de Assis, 4 de Outubro de 2014.
Francisco
23 março 2013
17 março 2013
Quaresma - a mulher adúltera e os seus acusadores
S.
João (7,53-8,11) narra-nos o bem conhecido encontro de Jesus com a mulher adúltera e os seus acusadores. De tão sugestiva,
sigo de perto a leitura que S. Gaburro, faz deste relato, interessado,
como ele, em colher o timbre e a modelação da voz de Jesus como lugar de
revelação da verdade de Deus e da nossa própria existência. Aqui, o conteúdo
não seria acolhido sem a forma, neste caso, sem o modo de dizer e a sonoridade,
precisamente porque esta forma é já o conteúdo. A graça que salva assume o
timbre de uma voz que toca afectivamente, a eloquência de um gesto que
justifica a vida, a autenticidade de uma presença que restitui cada um à
verdade do que é. E, aí, em verdade, está Deus que salva-guarda e regenera a
vida.
Jesus
está sentado a ensinar. A sua voz en-sina, assinala precisamente porque imprime
um sinal. Mas eis que Jesus se cala e, em silêncio, deixa espaço para que
outras palavras se possam dizer e outras vozes se façam ouvir. Porém, as que
chegam agora são de acusação e de julgamento. São ditas sobre uma mulher
apanhada em flagrante adultério, exposta na impúdica praça de todos os olhares.
Num triste espectáculo público, circundam-na inúmeros dedos apontados, num
rebuliço acusatório insuportável. «De um lado, o vociferar agressivo, do outro,
o silêncio de Jesus. As vozes que se levantam trazem a ironia (“Mestre”), o
veredicto já dado (“Moisés mandou-nos lapidar mulheres como esta”) e a
armadilha (“Tu, o que dizes?”)». A esta provocação, «Jesus responde em silêncio
com o gesto de se curvar e de marcar a terra com o dedo» . Eis, então,
que, vinda do seio do silêncio, sensível e reflexivo, a voz de Jesus re-nasce.
«O burburinho das vozes encontra atento o ouvido de Jesus, mas, sobretudo, o
seu sentir, o horizonte com o qual ele está diante da vida», pre-sentindo o que
cada um sente. «Os tons, os timbres, a raiva, a vontade de juízo sumário
encontram hospitalidade e pro-vocam a sua voz». Então, levantando a cabeça e
rompendo o silêncio, Jesus diz: «O impecável de entre vós seja o primeiro a
atirar sobre ela uma pedra» (v.7). É «uma voz que dis-trai, no sentido em que,
com força, faz sair os seus interlocutores do ciclo vicioso» de um esquema
exclusivamente processual e jurídico. Poderia uma vida humana caber nesse
procedimento sumário? Poderia a verdade de Deus e a sua justiça esgotar-se
nessa ânsia de punição? Que satisfação seria dada ao criador a aniquilação tão
violenta de uma sua criatura? «Com uma delicadeza inaudita, a voz passa pelas
fendas da consciência». Con-vocado, Jesus con-voca. Pro-vocado, Jesus pro-voca.
Da «selva das vociferações mortíferas», nasce a «voz que quer a vida». Dada a
palavra ao excesso de sentido que faltava acolher, Jesus curva-se, de novo.
Quanta eloquência podemos colher neste gesto silencioso de se curvar, depois de
dizer palavras tão elementares. Capaz de recordar o essencial e, assim, de
interpelar, Jesus faz regressar o silêncio. Calam-se as vozes venenosas e
mortais. Baixam-se os dedos da acusação legal. Caem por terra as pedras prontas
a ferir, até à morte, em nome de um Deus que não se liga de afecto. A
autoridade e a modelação da voz parecem bastar para que Jesus revele quem é, de
onde vem e para onde aponta, revelando, ao mesmo tempo, a ambiguidade violenta
das vozes acusadoras e da sua religião, uma religião que não liga, só separa.
Tudo foi atravessado e ferido – o ouvido, as mãos, a consciência, o coração, o
passado, o presente, o futuro. Cada um é restituído a si mesmo, como se
ressoasse, novamente, essa pergunta das origens: «Onde estás?» (Gn 3,9). Um a um, partem de regresso à
casa da própria realidade – seja essa grande ou miserável, graciosa ou
desgraçada, é sempre daí que deverá partir quem desejar avançar. Vão, agora, em
silêncio, para que o sentido que ecoa na voz escutada possa ressoar no íntimo
da alma e, assim, faça nascer de novo.
Entretanto,
Jesus ficou sozinho, com a mulher. Colhendo a densidade do momento, disse tão
bem o poeta D. Faria. «Não turbam a água dos meus olhos/ As pedras que me
atiram sobre o corpo// As tuas mãos vazias este muro/ Branco me doem muito
mais» . A verdade de um e de outro encontram-se face a face. Deus
ali tão perto, na voz e no gesto deste homem de Nazaré. Quadro extraordinário e
comovente. Eis a forma do encontro entre o Filho eterno e a história ambígua de
uma filha. Eis a força da graça que salva a vida. Esta vida. Esta mulher.
Porque Deus não Se dá em abstracto, por uma humanidade indistinta, sem rostos e
as suas rugas nem biografias e as suas ambiguidades. «Mulher, onde estão?
Ninguém te condenou?» (v.10). «Ninguém, Senhor». «Também eu não te condeno».
«Vai». «Daqui em diante, não voltes a pecar» (v.11). «A voz de Jesus tem o
poder de restituir à mulher a sua própria voz, aquela que os acusadores lhe
tinham roubado» . Jesus dá a palavra, cede o lugar, abre espaço.
«Mulher!». A origem é recordada como promessa. O horizonte é reaberto como
possibilidade de feliz reconhecimento. À vida é restituída a sua bênção
originária. Pela voz e pelo silêncio, pelos gestos elementares e pela força da
presença, tão íntegra, tão humana, «Jesus atravessa esta página como um
fenómeno pneumático, alimento do Espírito criador, fenómeno musical que
liberta, num único som, notas divinas e notas humanas» . Na força e
na delicadeza deste encontro humano, pressentimos um Deus que crê em cada homem
e em cada mulher, que se compraz e se alegra com o seu nascimento e o seu
contínuo recomeço – Deus em contínuo acto de geração Ele que vive eternamente dando a
vida. Salvaguarda o desejo visceral de confiança que se dá e se recebe no
espaço vital do mútuo reconhecimento. Reconhecer-se
reconhecido num encontro humanamente conseguido diz o mistério de Deus
e o segredo mais intimo que mantém em vida cada vida que a este mundo venha e a
Deus se dirija.
P. José Frazão Correia, sj
A
dádiva de si narrada em Jesus.
Revelação de Deus e plenitude humana
Revelação de Deus e plenitude humana
(postado por Alice Matos)
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