A nossa Comunidade é formada por cristãos: homens e mulheres, adultos e jovens, de todas as condições sociais que desejam seguir Jesus Cristo mais de perto e trabalhar com Ele na construção do Reino, e reconheceram na CVX a sua particular vocação na Igreja (PG4)

17 março 2013

Quaresma - a mulher adúltera e os seus acusadores


S. João (7,53-8,11) narra-nos o bem conhecido encontro de Jesus com a mulher adúltera e os seus acusadores. De tão sugestiva, sigo de perto a leitura que S. Gaburro, faz deste relato, interessado, como ele, em colher o timbre e a modelação da voz de Jesus como lugar de revelação da verdade de Deus e da nossa própria existência. Aqui, o conteúdo não seria acolhido sem a forma, neste caso, sem o modo de dizer e a sonoridade, precisamente porque esta forma é já o conteúdo. A graça que salva assume o timbre de uma voz que toca afectivamente, a eloquência de um gesto que justifica a vida, a autenticidade de uma presença que restitui cada um à verdade do que é. E, aí, em verdade, está Deus que salva-guarda e regenera a vida.

Jesus está sentado a ensinar. A sua voz en-sina, assinala precisamente porque imprime um sinal. Mas eis que Jesus se cala e, em silêncio, deixa espaço para que outras palavras se possam dizer e outras vozes se façam ouvir. Porém, as que chegam agora são de acusação e de julgamento. São ditas sobre uma mulher apanhada em flagrante adultério, exposta na impúdica praça de todos os olhares. Num triste espectáculo público, circundam-na inúmeros dedos apontados, num rebuliço acusatório insuportável. «De um lado, o vociferar agressivo, do outro, o silêncio de Jesus. As vozes que se levantam trazem a ironia (“Mestre”), o veredicto já dado (“Moisés mandou-nos lapidar mulheres como esta”) e a armadilha (“Tu, o que dizes?”)». A esta provocação, «Jesus responde em silêncio com o gesto de se curvar e de marcar a terra com o dedo» . Eis, então, que, vinda do seio do silêncio, sensível e reflexivo, a voz de Jesus re-nasce. «O burburinho das vozes encontra atento o ouvido de Jesus, mas, sobretudo, o seu sentir, o horizonte com o qual ele está diante da vida», pre-sentindo o que cada um sente. «Os tons, os timbres, a raiva, a vontade de juízo sumário encontram hospitalidade e pro-vocam a sua voz». Então, levantando a cabeça e rompendo o silêncio, Jesus diz: «O impecável de entre vós seja o primeiro a atirar sobre ela uma pedra» (v.7). É «uma voz que dis-trai, no sentido em que, com força, faz sair os seus interlocutores do ciclo vicioso» de um esquema exclusivamente processual e jurídico. Poderia uma vida humana caber nesse procedimento sumário? Poderia a verdade de Deus e a sua justiça esgotar-se nessa ânsia de punição? Que satisfação seria dada ao criador a aniquilação tão violenta de uma sua criatura? «Com uma delicadeza inaudita, a voz passa pelas fendas da consciência». Con-vocado, Jesus con-voca. Pro-vocado, Jesus pro-voca. Da «selva das vociferações mortíferas», nasce a «voz que quer a vida». Dada a palavra ao excesso de sentido que faltava acolher, Jesus curva-se, de novo. Quanta eloquência podemos colher neste gesto silencioso de se curvar, depois de dizer palavras tão elementares. Capaz de recordar o essencial e, assim, de interpelar, Jesus faz regressar o silêncio. Calam-se as vozes venenosas e mortais. Baixam-se os dedos da acusação legal. Caem por terra as pedras prontas a ferir, até à morte, em nome de um Deus que não se liga de afecto. A autoridade e a modelação da voz parecem bastar para que Jesus revele quem é, de onde vem e para onde aponta, revelando, ao mesmo tempo, a ambiguidade violenta das vozes acusadoras e da sua religião, uma religião que não liga, só separa. Tudo foi atravessado e ferido – o ouvido, as mãos, a consciência, o coração, o passado, o presente, o futuro. Cada um é restituído a si mesmo, como se ressoasse, novamente, essa pergunta das origens: «Onde estás?» (Gn 3,9). Um a um, partem de regresso à casa da própria realidade – seja essa grande ou miserável, graciosa ou desgraçada, é sempre daí que deverá partir quem desejar avançar. Vão, agora, em silêncio, para que o sentido que ecoa na voz escutada possa ressoar no íntimo da alma e, assim, faça nascer de novo.

Entretanto, Jesus ficou sozinho, com a mulher. Colhendo a densidade do momento, disse tão bem o poeta D. Faria. «Não turbam a água dos meus olhos/ As pedras que me atiram sobre o corpo// As tuas mãos vazias este muro/ Branco me doem muito mais» .  A verdade de um e de outro encontram-se face a face. Deus ali tão perto, na voz e no gesto deste homem de Nazaré. Quadro extraordinário e comovente. Eis a forma do encontro entre o Filho eterno e a história ambígua de uma filha. Eis a força da graça que salva a vida. Esta vida. Esta mulher. Porque Deus não Se dá em abstracto, por uma humanidade indistinta, sem rostos e as suas rugas nem biografias e as suas ambiguidades. «Mulher, onde estão? Ninguém te condenou?» (v.10). «Ninguém, Senhor». «Também eu não te condeno». «Vai». «Daqui em diante, não voltes a pecar» (v.11). «A voz de Jesus tem o poder de restituir à mulher a sua própria voz, aquela que os acusadores lhe tinham roubado» . Jesus dá a palavra, cede o lugar, abre espaço. «Mulher!». A origem é recordada como promessa. O horizonte é reaberto como possibilidade de feliz reconhecimento. À vida é restituída a sua bênção originária. Pela voz e pelo silêncio, pelos gestos elementares e pela força da presença, tão íntegra, tão humana, «Jesus atravessa esta página como um fenómeno pneumático, alimento do Espírito criador, fenómeno musical que liberta, num único som, notas divinas e notas humanas» .  Na força e na delicadeza deste encontro humano, pressentimos um Deus que crê em cada homem e em cada mulher, que se compraz e se alegra com o seu nascimento e o seu contínuo recomeço – Deus em contínuo acto de geração Ele que vive eternamente dando a vida. Salvaguarda o desejo visceral de confiança que se dá e se recebe no espaço vital do mútuo reconhecimento. Reconhecer-se reconhecido num encontro humanamente conseguido diz o mistério de Deus e o segredo mais intimo que mantém em vida cada vida que a este mundo venha e a Deus se dirija.


P. José Frazão Correia, sj
A dádiva de si narrada em Jesus.
Revelação de Deus e plenitude humana


(postado por Alice Matos)

16 fevereiro 2013

Quaresma - Começou a jornada


Começou a jornada...
uma viagem de quarenta dias ...

Para trás ficaram os preparativos para uma longa caminhada,
o que é preciso levar, mas principalmente o que é preciso deixar...
Porque uma caminhada não se faz carregado,
muito menos quando se vai para o território da luta.

Já passou o tempo da azáfama, dos sonhos esperançados pela chegada da Hora
e o que outrora parecia distante, está a fazer-se agora.
É tempo de Parar. 
Hora está próxima...

Hoje é o primeiro dia,
a ansiedade, o entusiasmo e o Espírito encarregaram-se de não nos deixar dormir.

Esboçamos o primeiro Agradecimento
- já com os pés no caminho -
... este tempo vai ser de fazer Memória Agradecida da História do que nos trouxe até aqui.

Pela frente temos um Caminho de quarenta dias cheios de sinais,
- que requerem de nós um olhar atento e uma vontade disponível -
e também de preparativos…

Effatha! Abre-te!
É tempo de abrir os olhos, os ouvidos, a mente, a boca... 
e começar a experimentar e saborear tudo de maneira nova,
como quem se prepara para Nascer de novo...

...e fazer Caminho que nos levará ao Amor Primeiro,
         até à Páscoa.

Leve adaptação


(postado por Alice Matos)

27 dezembro 2012

Natal



O Filho de Deus vem ao mundo e não encontra abrigo, nos palácios e nas hospedarias do seu tempo, nem sequer tem a sorte de nascer em casa própria ou alugada! Na verdade, só por amor, o Deus Altíssimo, podia sujeitar-se ao desconforto de um sem-abrigo! Mas é isto mesmo, a sua nua e crua fragilidade humana, que servirá de sinal, aos pastores, ao grupo social dos «sem-abrigo» daquela época: “encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc.2,12). Ele não se impõe; jamais entra à força, mas, como uma criança, pede para entrar, ser ouvido, acolhido, cuidado com amor!




(postado por Alice Matos)

15 dezembro 2012

ADVENTO UM CAMINHO A PREPARAR…



A arte é a melhor forma de comunicar a fé
Marko Rupni

É tempo de esperar.
Outra vez.


A cada ano que passa, há algo que muda. Algo que se transforma.
Fico muitas vezes sem saber quem é que nesta história espera por quem?
Quem é que está grávido? Quem é que passa pelas dores de parto? Quem é que é chamado a uma nova vida?

Ano após ano sou arrasado por esta história de Amor entre Deus e o seu povo. Entre Deus e eu.
Nunca vou chegar à altura deste Amor.
Mas, Advento após a Advento, vou tornando a manjedoura que é o meu coração, um pouco mais quente e verdadeira, para O receber.

Que este Natal a que todos somos convidados não cesse de acontecer no nosso coração.

João de Lima
www.essejota.net



(postado por Alice Matos)

15 novembro 2012

05 novembro 2012

Falando do passeio CVX



Passeio CVX 2012
Nos dias 27 e 28 de outubro de 2012 realizou-se mais um Passeio da CVX-BI, desta feita com destino a terras do Minho: Guimarães e Braga. Entre membros CVX, familiares e amigos éramos um grupo de 23 pessoas que aceitámos o convite da CVX-BI para um momento de passeio, descoberta e convívio, acompanhados pelo nosso assistente regional, Pe. Hermínio Vitorino, sj.
A primeira paragem foi Guimarães, capital europeia da cultura, onde visitámos a Penha. Ali perto encontra-se a Casa de Sicar, um espaço de acolhimento, interioridade e criatividade pertencente a uma Fundação, criado no seio da Igreja, vocacionado para acolher pessoas que queiram cuidar da vida espiritual, procurando o encontro consigo próprias e com Deus. Nesse espaço, o nosso grupo foi amavelmente acolhido pela Alzira Fernandes, que nos abriu as portas da Casa de Sicar, onde para além de podermos partilhar a merenda, pudemos disfrutar de um belo local onde sobressai o valor da simplicidade e do serviço ao próximo.
Ainda nessa tarde fomos até ao centro da cidade de Guimarães onde fizemos um pequeno passeio pela zona histórica. Passámos em Braga, onde se seguiu uma visita guiada à capela “Árvore da Vida”, no Seminário Conciliar de Braga. Esta capela foi construída em 2010, toda em madeira, tendo sido recentemente reconhecida com o prémio “Edifício do Ano 2011”, por um site de arquitetura (ArchDaily). O Pe. Joaquim Félix, vice-reitor deste seminário e também um dos principais responsáveis da conceção da capela, levou-nos a conhecê-la, explicando-nos, com sabedoria, que ali cada detalhe foi pensado e inspirado na Bíblia, num permanente diálogo entre a Arte e a Teologia.
A noite começava a cair e rumámos até à Casa da Torre, no Soutelo, onde nos aguardavam quatro elementos CVX de Braga (nomeadamente do grupo Krysis) que nos acolheram com entusiasmo e com quem nos sentimos em “família alargada”. Jantámos e ensaiámos um serão de cantoria e boa disposição. À semelhança do que aconteceu no ano passado, no Passeio CVX a Évora, também desta vez se procurou promover o intercâmbio entre as duas regiões CVX.
Na manhã solarenga de Domingo fomos visitar o Mosteiro de São Martinho de Tibães, onde participámos na Eucaristia Dominical. Este Mosteiro foi fundado em finais do século XI, tendo sido ocupado no século XII pelos Beneditinos, vindo a tornar-se a Casa Mãe daquela ordem para Portugal e Brasil. Com a extinção das ordens religiosas masculinas foi parcialmente vendido em hasta pública tendo sido readquirido em 1986 pelo Estado Português que procedeu recentemente à sua recuperação.
Seguimos para Braga, onde almoçámos e passeámos pelas principais ruas da cidade (Jardins de Santa Bárbara, Sé Catedral), na companhia do Pe. José Frazão, sj que veio, simpaticamente, ao nosso encontro.
Chegava a hora da despedida e da partida, depois de um fim de semana bem passado, em boa companhia, ficando aqui o nosso bem-haja a todos quantos proporcionaram este momento de passeio, descoberta, convívio e acolhimento.
Ana Teresa Brás







(postado por Alice Matos)